Cidadãos por uma sociedade limpa

O desenvolvimento sujo não é inevitável como a maior parte dos políticos e economistas gostariam que você acreditasse: o desenvolvimento movido a energia suja e excessiva exploração do capital natural é uma escolha – mas não a única possível. O foco deste artigo é explicar por que a cidadania é a chave para uma mudança política na direção do desenvolvimento limpo e por que o ponto de partida é a reinvenção de nosso futuro urbano.

A reinvenção do desenvolvimento vai exigir uma imaginação – maior e mais livre –, para transformar nossas aspirações, reinventar nossos países e, especialmente, nosso futuro urbano. O desenvolvimento usual – crescimento a qualquer custo, cidades poluídas e exploração excessiva de recursos-chave – prejudica as pessoas e compromete nossa prosperidade a longo prazo. Aliás, o desenvolvimento não deveria ser o meio de alcançar uma vida melhor para a grande maioria das pessoas?

Estamos entrando num século urbano e mais voltado para o Sul: até 2050, a maior parte da população mundial viverá em cidades. E a maioria dessas pessoas estará nos países em desenvolvimento. A mistura de pressão demográfica com o desenvolvimento usual não sugere um futuro promissor. Não existe prosperidade coletiva possível em países movidos a energia suja, água poluída e atmosfera tóxica. É possível termos uma trajetória alternativa, por caminhos mais limpos e seguros, se abandonarmos noções obsoletas que aceitam o desenvolvimento não sustentável como se fosse inevitável. Podemos ter aspirações maiores, especialmente à medida que nossa confiança sulina se expande quase à mesma velocidade do crescimento de nossa classe média e das oportunidades de negócios.

Na América Latina, por exemplo, o advento da classe média deve ser uma boa nova. Portanto, por que não ampliar as opções que uma renda maior pode propiciar? Por que se apegar à aspiração de passar o domingo na praça de alimentação do mais novo shopping? Por que desistir do desejo de ter cidades e transportes modernos, limpos e fáceis de usar? Se o desenvolvimento sujo esmagou a economia e a política, então precisamos oferecer uma saída aos cidadãos.

Temos um legado de debates sobre a sustentabilidade desconectados do engajamento dos cidadãos. As “ilhas” de desenvolvimento sustentável se multiplicaram e, por padrão ou propósito, deixaram de fora as questões da economia política. Esta abordagem evasiva limita o impacto dos esforços técnicos, especialmente quando levam à “paralisia pela análise”. É compreensível que os especialistas tratem o problema com números, pesquisas e oficinas de discussão – e realmente precisamos de análises de alta qualidade. Porém, chegou a hora de desafiar na prática as convenções da política e da economia, sempre que o foco seja o crescimento de curto prazo à custa do interesse público.

Consideremos as campanhas presidenciais. No Nivela, priorizamos a análise das eleições no Sul. Acompanhamos o Chile, Colômbia, Costa Rica, Índia, África do Sul e a próxima eleição no Brasil. Qual é a conclusão? Os partidos políticos, particularmente os tradicionais, estão presos à mesma receita: a cansativa promessa de crescimento e empregos e o compromisso já esperado de diminuir a corrupção e a burocracia. Este cardápio é praticamente o mesmo em todos os nossos países. A maior parte dos candidatos insiste em metas de curto prazo, para fins de política eleitoral, evitando tópicos vitais para a cidadania, como serviços públicos melhores e questões de qualidade de vida. Aliás, há um paradoxo: se os candidatos presidenciais pouco fazem para reverter o ciclo de energia suja, ar poluído e água ameaçada, por que ainda votamos neles?

Se os candidatos presidenciais pouco fazem para reverter o ciclo de energia suja, ar poluído e água ameaçada, por que ainda votamos neles?

Encaremos a realidade: a maioria das pessoas ainda não encontrou uma visão alternativa de desenvolvimento, atraente e realista, que pudesse adotar. Elas ouvem os economistas porem a culpa de nossos problemas no déficit fiscal; veem conflitos entre os ecologistas e os megaprojetos; e toleram partidos políticos que culpam uns aos outros pela pobreza e desigualdade. Somente as Copas do Mundo e os escândalos sensacionais – o grande esquema de corrupção, um caso judicial dramático ou a renúncia de uma alta autoridade – dão aos cidadãos uma trégua do ciclo tedioso de ideias previsíveis.

A cidadania tem a chave para a mudança social – por isso precisamos de ideias melhores e mais atraentes. Como fortalecer o poder dos cidadãos? Como engajá-los?

Reglas limpias para la democracia

Nunca será possível aplicar uma regra universal às aspirações de todos. Há muitos esforços em todo o mundo para que as pessoas se conscientizem sobre as mudanças climática, visando estratégias diferentes:

“Mostrem os números!”

“Despertem raiva!”

“Não, procurem inspirá-los!”

As mensagens se reduzem essencialmente a políticas locais. As vitórias ocorrem quando os cidadãos acreditam no poder de suas ações. Em vários países, cidadãos estão aderindo a campanhas para retirar investimentos da indústria dos combustíveis fósseis. Este movimento conscientiza sobre o impacto da queima de combustíveis fósseis no clima. Também demonstra o impacto dos interesses das indústrias do carvão e do petróleo na democracia, especialmente nos legisladores pagos pela indústria. Como o cidadão pode fazer a diferença? Exigindo que gestores dos fundos de pensão, bancos e universidades parem com seus investimentos mais irresponsáveis. Nesse movimento, os estudantes são muito ativos. Uma história positiva recente foi a decisão da Universidade de Stanford de retirar US$ 18 bilhões de investimentos diretos em 100 indústrias de carvão, recomendando ainda que seus gerentes de fundos externos fizessem o mesmo. A lista dessas decisões de desinvestimento, especialmente a rejeição das usinas de carvão, continua a crescer e inclui bancos de desenvolvimento.

Como nossos países precisam resolver o dilema do desenvolvimento, temos que responder com soluções de desenvolvimento e não com políticas ambientais ou climáticas. A abordagem centrada na questão do carbono dificilmente vai penetrar a muralha dos debates sobre o desenvolvimento. Não há dúvida que precisamos ter políticas corretas sobre o meio ambiente e o clima, se estamos falando sério sobre o desenvolvimento, sobre o tipo adequado de desenvolvimento. No entanto, para engajar a sociedade, vamos precisar oferecer uma visão mais ampla e muito mais empolgante do que a “redução das emissões”.

Cidadãos por uma sociedade limpa

O termo “limpo” é algo direto que vai além da narrativa das “emissões”. Em última análise, queremos que as sociedades joguem limpo e isso cobre muito mais do que energia limpa, água potável e ar respirável. Isso significa uma democracia aberta e transparente que respeite regras limpas. A mudança para um futuro urbano melhor se baseia em cidadãos que apoiem governos e empresas que joguem limpo. Não somos nós que elegemos os governos que adquirem produtos e serviços? Se desejamos algo melhor do desenvolvimento e da infraestrutura, precisamos verificar se nossos congressistas têm as mãos limpas.

Testamos esse conceito na prática. Usamos a palavra “limpa” para definir o trabalho de uma organização lançada em janeiro, Costa Rica Limpia (Costa Rica Limpa), que procura construir cidadania em torno do desenvolvimento limpo e de regras do jogo limpas. Criamos uma linguagem e elementos visuais para o conceito de “limpo” que se afasta do ângulo ambiental tradicional, escolhendo temas urbanos e colocando pessoas no centro da história. Nosso trabalho não é tornar “verde” o cidadão, mas empoderar os costa-ricenses para que se engajem como cidadãos. Insistimos no nosso direito e dever de construir uma Costa Rica limpa.

O termo “limpo” cobre muito mais do que energia limpa, água potável e ar respirável. Isso significa uma democracia aberta e transparente que respeite regras limpas. A mudança para um melhor futuro urbano se baseia numa cidadania apoiando governos e empresas que joguem limpo.

Analisamos a campanha eleitoral de 2013-2014, fizemos uma campanha no Facebook, produzimos um vídeo e acompanhamos as promessas eleitorais, o que nos deu quase 33.500 seguidores em poucas semanas (um número respeitável num país pequeno). Com a resposta positiva de cidadãos e jornalistas, vamos monitorar os avanços das promessas eleitorais após seis meses de governo. Atualmente, estamos desenvolvendo um modelo para monitorar o Congresso: nossos representantes no período 2014-2018 irão apoiar o transporte limpo? Nosso transporte é sujo e caótico e é a fonte principal das emissões de gás carbônico (CO2). Sem resolver a questão do transporte, nossa economia continuará a perder dinheiro (ineficiência, congestionamentos e poluição) e a cidade a ser uma fonte de frustração e agressão.

Assim, a Costa Rica Limpa confirmou nossos instintos: a cidade é a porta de entrada natural. As pessoas tocam a cidade e sentem seu cheiro. Elas amam San José – ou a odeiam. Algumas pessoas a evitam, vivendo em comunidades cercadas, mas para a maioria, San José é parte da sua vida. Os jovens são nossa base principal. Notamos uma nova geração de profissionais que acreditam numa “cidade mais inteligente” e evocam aspirações mais limpas por meio de ações concretas (por exemplo, Chepecletas, YoAmoChepe - “Amo San José” e o Centro para a Sustentabilidade Urbana).

Outras partes da América Latina já passaram ou estão passando por descobertas similares. Aspirações emergentes por cidades melhores (especialmente, melhor transporte) representam as reivindicações mais concretas por um desenvolvimento melhor e mais limpo. Essas demandas por mudanças se expressam por meio de protestos agressivos e de outras maneiras. Profunda frustação com o transporte e outros serviços públicos entre jovens brasileiros desencadeou os protestos de 2013, exigindo mudanças da Presidente Dilma Rousseff. Os protestos alcançaram proporções históricas (consulte este infográfico da Nivela) e o governo deu respostas a algumas das reivindicações sobre transporte e outros serviços. Quando a cidade de Medellín, na Colômbia, sediou o Fórum Urbano Mundial em abril, a participação bateu recorde, com 22.000 pessoas enchendo as salas da conferência. O Fórum de Medellín vinculou cidades melhores à justiça social – um elo crítico, considerando a necessidade urgente de promover uma integração social mais profunda. Não foi surpresa a empolgação dos participantes jovens.

A pressão contra os verdes

Existe uma feroz oposição a essa mudança para uma economia limpa. A pressão vem de uma mistura de interesses: de empresas que lucram com energia suja e uma aplicação tíbia dos regulamentos ambientais e climáticos, até autoridades governamentais e legisladores que apoiam aqueles interesses. O relacionamento promíscuo entre empresa e legisladores resulta em práticas venenosas de finanças em campanhas eleitorais que prejudicam o interesse público. Um caso extremo são os EUA, onde congressistas se posicionam publicamente contra a ciência e negam qualquer risco para o clima (que possa prejudicar os EUA), para preservar negócios de energia suja em seus estados.

O lobby antiverde alega que uma economia limpa é ruim para o crescimento do PIB. Eles também reduzem preocupações legítimas com sustentabilidade e democracia a estereótipos unidimensionais como “Verde é luxo” ou “Verde é burocracia”. O cinismo não tem limites. Um exemplo grosseiro é o de Owen Paterson, que estava no governo do Reino Unido até há poucas semanas, e escreveu “Tenho orgulho de resistir ao lobby dos verdes” num artigo de jornal. Ele trabalhava exatamente para o governo que havia prometido se tornar o “governo mais verde de todos”. Isso levanta muitas questões, tais como por que um governo escolheria um Secretário de Meio Ambiente que se opõe aos verdes? Cada vez mais, há exemplos de governos que atacam abertamente os verdes. O primeiro-ministro australiano liderou uma reviravolta completa na política climática de seu país. O primeiro-ministro do Canadá é outro exemplo. E a lista continua.

Precisamos ter mais discussões públicas sobre o grau de influência de certos interesses empresariais sobre as políticas públicas. Assim, além do engajamento dos cidadãos – o foco deste artigo –, necessitamos de líderes empresariais que possam superar o desempenho de suas contrapartes sujas por meio de melhores modelos de negócios e de estratégias mais inteligentes no longo prazo.

Limpar a economia

O desenvolvimento sujo não é inevitável como a maior parte dos políticos e economistas gostariam que você acreditasse. O desenvolvimento movido a energia suja e exploração excessiva do capital natural é uma escolha. E não é a única opção. Assim, precisamos aperfeiçoar os argumentos econômicos para expor os mitos que prevalecem nos debates nacionais e na mídia. Também necessitamos atribuir um papel maior à ciência e ao gerenciamento de riscos na reavaliação de nossas prioridades para o desenvolvimento, pois vamos precisar de mais segurança num mundo com riscos climáticos, escassez de água e insegurança alimentar.

Deixemos que os números falem: As evidências dão suporte à mudança. a) Sabemos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) que a perda global de PIB como consequência dos impactos climáticos seria de 0,2 a 2%.b) O Banco Mundial quantificou os benefícios econômicos de um desenvolvimento mais limpo, especialmente em termos de vidas, empregos e PIB “. Por exemplo, se o Brasil, China, Índia, México, os EUA e os países da União Europeia transferissem mais passageiros para o transporte público, deslocassem mais transporte de carga das estradas para as ferrovias e transporte marítimo e melhorassem a eficiência dos combustíveis, 20.000 vidas por ano seriam poupadas, centenas de milhões de dólares de perdas agrícolas seriam evitadas, quase US$ 300 bilhões de energia seriam economizados e as emissões de carbono seriam reduzidas em mais de quatro giga toneladas. c) O relatório “New Climate Economy” (A Nova Economia do Clima) preparado por economistas e ex-chefes de Estado, que será lançado em setembro, quantifica os benefícios econômicos das ações climáticas e os malefícios econômicos que seriam causados pela inação. d) “Risky Business: The Economic Risks of Climate Change in the United States" (Negócio Arriscado: os riscos econômicos das mudanças climáticas nos EUA) — um relatório bipartidário escrito por economistas, especialistas em finanças e empresários dos EUA — quantificou os custos para a economia norte-americana de não enfrentar os riscos climáticos (incluindo a elevação do nível do mar, perdas de propriedade, calor extremo, tempestades costeiras, demandas energéticas e colheitas declinantes). Por exemplo, “até 2050, propriedades costeiras valendo de US$ 66 bilhões a US$ 106 bilhões provavelmente estarão submersas em todo o país, e até 2100, estarão submersas propriedades de US$ 238 bilhões a US$ 507 bilhões.” O aperfeiçoamento dos argumentos econômicos também ajudará a contrabalançar o preconceito sistemático contra a energia renovável, que faz o público acreditar que ela ainda está “a décadas” de se tornar uma opção séria. A expansão da indústria de energia renovável contribuiu para um declínio sistemático de custos, resultando numa queda de 80% nos preços da energia solar em cinco anos. O investimento de um milhão de euros em eficiência energética gera de 17 a 19 empregos. Somente em 2013, foram criados 6,5 milhões de empregos em todo o mundo no setor de energia renovável.

O mito do “barato”: Os debates políticos em nossos países são com frequência capturados pela ilusão de “preços baixos”: a eletricidade, gasolina e água baratas são “vendidas” como caminho para o desenvolvimento. Muitos países, especialmente os de economia de renda média, desenvolveram sofisticadas técnicas em relação a sistemas energéticos, opções de eletricidade e gerenciamento de recursos naturais. Assim, podemos agora ter um debate bem mais transformador sobre os investimentos necessários para modernizar nossa infraestrutura. Ao focar o debate no país que queremos construir, podemos evitar a falácia dos preços “baratos” como forma de sucesso. Além do mais, a opção pelo “barato” não leva em conta as externalidades negativas que se acumulam pela exploração desses recursos. Em todo o mundo, os subsídios aos combustíveis fósseis (US$ 544 bilhões em 2012) saem caro para a sociedade e terão de ser retirados gradualmente. Precisamos expor o mito do “petróleo barato”, com uma análise convincente que mostre o verdadeiro custo do petróleo e de outros combustíveis fósseis.

Necessitamos empoderar os cidadãos e reavaliar os argumentos econômicos em apoio à democracia e desenvolvimento limpos. Vamos precisar de líderes na política, nos negócios e na sociedade que façam do interesse público o ponto central de uma nova agenda urbana. Estimular a construção de cidades mais limpas e inclusivas é um terreno fértil para mostrar aos cidadãos que a mudança já começou.

* Monica Araya é fundadora e diretora de Nivela e Costa Rica Limpia.

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