Diplomacia Religiosa: Uma virada no jogo do clima?

Nesta semana, os discursos que o Papa Francisco fez durante sua visita aos EUA, incluindo na abertura da assembleia geral da ONU, referendou sua posição de porta-voz e ator político da causa da mudança do clima.

Desde a publicação da encíclica Laudato Sí no início deste ano, a mensagem de que é preciso repensar a nossa relação com o planeta, as relações de interdependência e se restabelecer o equilíbrio entre as dimensões social, ambiental e econômica vem ganhando novos significados e alcances. Esse movimento, contudo, vai muito além da igreja católica. Diversas comunidades religiosas estão liderando fóruns de diálogo e ação sobre mudanças climáticas ao redor do mundo, deixando claro que salvar o planeta não é só tarefa dos ambientalistas mas de todos nós.

Os líderes religiosos têm um papel fundamental no debate sobre a visão de futuro que a sociedade tem ou quer ter e sobre as transformações necessárias para que humanidade consiga viver em paz num planeta saudável. Segundo Paul Ladd, diretor do PNUD, mais de 80% da população mundial declara alguma filiação religiosa. As comunidades religiosas formam o maior e mais socialmente ativo grupo do planeta, e as relações entre esses líderes e suas respectivas comunidades são imbuídas de ação. Elas traduzem-se no compartilhamento de uma ética que implica em mudanças de comportamento, tanto individual como coletivo.

Os debates sobre mudança climática provocam justamente uma reflexão sobre a necessidade de se revisar o nosso modelo de desenvolvimento que ainda coloca em oposição a necessidade de se proporcionar crescimento econômico e inclusão social com a proteção do meio ambiente e relação de harmonia dos seres humanos com a natureza.

O engajamento dos grupos religiosos neste debate é fundamental para que haja uma resignificação do tema de mudança do clima, dando-lhe de maior concretude para as sociedades, tornando-o mais palpável tanto na prática do dia-a-dia como nas demandas políticas que a sociedade apresenta a seus representantes. Felizmente, diversas comunidades religiosas vêm se organizando neste sentido.

“A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo". Laudato Sí

Fé no Clima no Brasil

No final de agosto, foi realizado no Rio de Janeiro (Brasil) o Encontro Internacional Fé no Clima , que reuniu representantes de 12 religiões e tradições que possibilitou a troca de experiências e visões sobre o o tema de mudanças climáticas à luz das diferentes perspectivas que cada religião oferece. Algumas das mensagens dos líderes podem ser encontradas aqui.

Os líderes assinaram a Declaração Fé no Clima, que foi entregue à Izabela Teixeira, Ministra do Meio Ambiente do Brasil e será entregue a outras lideranças políticas no Brasil, que demanda do governo que assuma o compromisso de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa compatível com a necessidade de limitar o aumento da temperatura global a 2 graus Celsius, preserve a biodiversidade em todos os biomas; controle o desmatamento; promova ações de adaptação em benefício das populações mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas; garanta a preservação de tradições culturais e modos de vida; combata a fome e a indignidade, e adote preferencialmente fontes de energia renováveis e de tecnologias limpas.

“Assumimos o compromisso de expressar as discussões sobre mudanças climáticas em uma linguagem que faça sentido para nossas comunidades e que nos permita refletir sobre como podemos transformar nossos modos de vida, promovendo sensibilização e mobilização efetiva sobre o tema”. Declaração Fé no Clima

Tanto na Declaração como durante o encontro, está presente o senso de responsabilidade compartilhada de todos, não apenas dos governos, em lidar com os efeitos das mudanças do clima. Os líderes, a partir de suas diferentes linguagens e símbolos, reforçam a importância do trabalho a ser feito com suas comunidades de seguidores e fiéis para que uma mudança de comportamento, e uma nova ética possa emergir: a promoção do entendimento sobre a interdependência entre todos os seres, o espírito de colaboração e a responsabilidade sobre o planeta e seu futuro. O encontro inter-religioso no Rio também evidenciou que há múltiplas formas de se abordar esse tema, conectando a mudança do clima com questões do dia-a-dia das pessoas como uso e acesso à água, relações entre consumo e bem-estar, dentre outros.

A iniciativa marca o início do que espera-se que seja um maior e promissor engajamento político das lideranças religiosas com este tema no Brasil.

Iniciativas Mundo Afora

Um grande líder religioso, o 17o Karmapa, o segundo na hierarquia do budismo tibetano, logo abaixo do 14o Dalai Lama, declarou explicitamente que quer deixar como legado concreto a recuperação e preservação do Himalaya, um de seus principais compromissos de “mandato”. Em março deste ano, ele iniciou suas viagens internacionais a partir das universidades americanas, empunhando a bandeira do clima e do respeito ao ambiente.

Em meados de agosto, na Turquia, 60 líderes islâmicos de 20 países emitiram uma declaração conjunta em prol das ações necessárias para engajar os mais de 1,6 bilhões de muçulmanos na causa da mudança climática. Entre as demandas do documento está a redução da emissão de gás carbônico, que os países acordem de fazer tudo para que o limite do aquecimento global não ultrapasse 1,5 C e que, para isso, os países tenham como meta ter uma matriz de 100% de energia limpa ou renovável o mais rápido possível.

A ARC (Alliance of Religions and Conservation), que trabalha desde 1995 para criar uma “narrativa de consciência” nos indivíduos, realizou dois encontros mundiais de líderes de várias religiões para discutir a mudança do clima e os compromissos que poderiam ser assumidos conjuntamente em favor do futuro do planeta e da humanidade. No encontro de setembro, compromissos concretos foram assumidos por líderes religiosos para contribuir com o desenvolvimento sustentável do planeta.

O Caminho Adiante

As reflexões dos líderes religiosos no encontro no Rio, do Papa Francisco e de todas essas iniciativas mundo afora vêm colocando em cheque a (in)sustentabilidade dos padrões de consumo e estilo de vida que a humanidade possui hoje, provocando uma revisão deste valores com vistas a forma como a humanidade deseja construir o seu futuro. Os ensinamentos que esses líderes trazem sobre o tema são valiosos para expandir e disseminar esse debate na sociedade global.

O clima é um tema de alcance planetário, que atinge todos, mas principalmente as populações mais vulneráveis. A “diplomacia religiosa” é uma poderosa ferramenta para exercer pressão sobre os tomadores de decisão nesta hora de assumir uma postura assertiva em relação à contribuição dos países sobre a questão na próxima Conferência do Clima da ONU em dezembro deste ano, em Paris. A contribuição do Papa Francisco nos últimos dias vem reforçando isso.

Engajar os líderes religiosos e também as respectivas comunidades no debate político sobre as mudanças climáticas é tão essencial como envolver as lideranças políticas e econômicas. Todos fazem parte desta mesma humanidade que precisa assumir uma nova ética de atitude e comportamento humano em relação ao uso dos recursos naturais e o futuro que queremos para o Planeta.


Ana Toni dirige o Instituto Clima e Sociedade. Alice Amorim dirige o trabalho sobre mudanças climáticas do grupo GIP (Gestão de Interesse Público). Ambas collaboram con Nivela.

Mais informações estão disponíveis en Nivela.org/People.

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